Descontínua Flor
Uma menina graciosa de cabelos ondulados, vestida com seu tutu, caminha ociosamente saltitando pelo solo plano coberto de plantas em plena florescência. Ela esbarra com uma encantadora flor albida, com pétalas ramificadas que debruçam sob os ares e ocupam espaço ao redor. Ademais, exala fortemente aroma adocicado e intenso, inebriante. A menina escancara os olhos, aproxima-se da flor, abeira-se e sente perfeitamente sua essência, inalando o suficiente para, possivelmente, descrevê-la em versos. Aquela flor inabitual torna-se um espetáculo aos olhares.
Num capricho, agarra o pedúnculo da flor e rasga sua haste, para que faça dela sua. Com júbilo, retorna rumo aos seus aposentos, expressando enorme entusiamos com o achado. Para a desafortunada flor, na frialdade e ânsia, mergulha-a na água química retirada da torneira da cozinha, com o propósito de preservar sua formosura. Melhor dizendo, para não amarguradamente, em tortura, reduzi-la à podridão, preparando-a para a morte.
Dia após dia, a flor repousa na janela durante as manhãs, tomando seu banho solar. À noite, a garota a recolhe devido à frieza noturna. Seu encanto é evidente, seu anseio de observar, tocar, amar e zelar são claros. Ela apanhou um vaso de porcelana, com uma grande flor azul colonial estampada e vetores que preenchem toda a porcelana alvacento. O contraste entre ambos, a flor e o vaso, sua palidez e o azul cintilante, torna delirante.
A flor, contudo, aparenta estar aflita, angustiada. No entanto, estranhamente quieta. Seu cheiro já se foi há muito tempo, restando o odor da lama. Completamente esgotada, na solidão da natureza morta. O desespero vem à tona, e a menina, depressa, carrega o vaso com a flor ao sol, na esperança de que retorne à sua radiância.
No dia seguinte, a situação não melhorou; a flor não tem mais suas pétalas, sua cor é podre, como verde musgo e oliva. É somente carne de um cadáver. A menina, espantada, nega a perda e sua realidade, portanto, enfurece. A ira consome seu estado. Grita indagações no desespero e afirmações distorcidas, alucinada: "Por que me deixou? Você era meramente minha. Ingrata, eu te amava!". Evidentemente, não espera resposta, mas palavras são emitidas à sua cabeça, tão súbitas, mas ainda naturais, como um clarão. As palavras são diretas e incisivas: "O que esperava?". Não compreende; não sabe se é a própria flor ou apenas seu subconsciente. Com essa mensagem, imagina ser deífico e que, de alguma maneira, tudo pode ser revertido.
Posteriormente, a flor reduz sem que, no entanto, se desintegre. Sua fé esmigalhada com o tempo dá espaço à tristeza e mágoa. A menina, aos prantos, encharca seus olhos com o obsoleto; as lágrimas escorrem veementemente pelo rosto em uma trágica festa emocionante.
Retorna ao campo florido à procura de uma gêmea, idêntica a sua irmã; todavia, não havia, nem mesmo primo, nem sequer parente distante. A menina deve conviver com a dor, que é dura e sofrível, enquanto sua lucidez se recupera gradualmente.
Quando sossegada, retoma sua rotina. Frequentemente passa perto do terreno que, em instantes atrás, era coberto de flores, agora é unicamente um campo. No deleite, ao sentar em um banco convencional instalado em espaço público, cruza as pernas e recorda-se da flor. Refletindo, admite que foi egoísta e severa com ela. Reconhece e supera sua perda. Levantando, torna a novamente saltitar pelos campos que, dessa vez, estão desolados.


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