Surgimento do Alvorada
No coração da escuridão, sobrevoando o vácuo, duas forças antagônicas, porém semelhantes, trilhavam um caminho conjunto. Eram entidades de uma existência atípica; não pertenciam ao reino material nem ao espiritual. A entidade pura: Mother-Blue, e a impura: Blind-Father, conhecidos entre os mortais como Drobus. Esses seres deram início ao ciclo dos “criadores” e à mais grandiosa guerra que o universo jamais presenciou. Por razões desconhecidas, empregaram seus atributos singulares para moldar criaturas enigmáticas, os Pathernos, seres de formas indefinidas, e os alocaram no berço cósmico de Arcteus. O primeiro Patherno, batizado pelos historiadores de Aeginus, foi o precursor de uma era. No entanto, a paz revelou-se uma miragem, pois após o advento do primeiro ser no imenso vazio, Mother-Blue e Blind-Father geraram inúmeros outros para lhe fazer companhia.
E assim se deu o Gênesis, a geração de incontáveis seres que dominavam o vazio. Incomodados com sua própria existência, entraram em conflito, desencadeando The Unhealthy War. Esta guerra se estendeu por eras — ou talvez não, já que o tempo ainda não havia sido concebido. A cronologia era um conceito alienígena; caso existisse, os eventos se prolongariam por uma eternidade, sobrecarregando a mente de qualquer ser ordinário — . Os embates culminaram em explosões colossais, gerando nebulosas de plasma que se expandiam pelo infinito, para depois se contraírem e condensarem em esferas de matéria — os planos, universos semelhantes a cúpulas. Internamente, eram ocos e empoeirados, mas externamente, exibiam uma beleza estonteante. À distância, assemelhavam-se a esferas translúcidas, envoltas por uma aura sutil em tons de vermelho, verde e azul. Por dentro, pareciam tempestades sombrias vistas de fora.
Muitos planos foram intencionalmente criados. Embora visíveis, eram ignorados e considerados inexistentes. Afinal, o conceito de existência era frágil, especialmente naquele estágio primordial.
Durante as incessantes batalhas, um dos seres notou uma presença que se desviava da luta. Encantado pelos magníficos planos cintilantes ao seu redor, ficou maravilhado. — Seria possível que um ser como ele possuísse percepção? Aparentemente, sim — . Sua descoberta atraiu a curiosidade de outros, enquanto alguns Pathernos, ainda imersos na guerra, desdenharam da revelação e retornaram ao conflito, prontos para enfrentar a morte — Para eles, o fim era honroso, pois nada tinham a perder. No entanto, aqueles que se detiveram diante da beleza encontraram algo pelo qual valia a pena viver — . Poderiam ter ficado eternamente extasiados pela visão, mas um entre eles iniciou um diálogo. — Desde quando podiam falar? Teriam adquirido essa capacidade subitamente ou nunca antes haviam tentado? — O debate suscitou discussões tão prolongadas quanto a vida de uma ave, que inevitavelmente finda. Durante esse diálogo, elegeram o maior e mais esplêndido dos planos, que viria a ser conhecido como Orbis, o futuro domínio mortal. — Mas, por que Orbis? — Finalmente, rumaram em direção a Orbis, colidindo com o Rihe, a barreira que sustentava todo o interior, e criaram uma fenda. Com o impacto, começaram a brilhar menos intensamente e perderam parte de sua essência, mas em contrapartida, Orbis passou a resplandecer com maior vigor. A chegada dos seres divinos instaurou a natureza divina e a magia pura em Orbis, que desde o princípio, mesmo antes dos Pathernos, já era dotado de uma característica intrínseca: a natureza comum. Assim, Orbis foi fundamentado pela natureza e pela divindade. Todos os envolvidos nesse processo passaram a ser venerados como divindades.
No âmago de Orbis, ao alcançarem a região mais recôndita, as divindades detiveram-se, observando o panorama. Um véu de trevas e neblina envolvia tudo, um manto de escuridão que se estendia por cada canto. Uma melancolia profunda os invadiu, consumidos pelo abismo, mergulhados em desalento. No entanto, uma divindade, movida pela ambição, decidiu libertar todos daquela angústia. Ela se extinguiu, esfriando-se, convulsionando e, finalmente, explodindo, sacrificando sua existência. Com a explosão, a neblina foi repelida, formando uma barreira esférica semelhante ao Rihe, com o propósito de impedir o retorno da névoa. Essa barreira, conhecida como o segundo Rihe, confinou a névoa, predestinada a se tornar as nuvens do futuro Coenhlum, um reino imaterial. Ainda assim, apesar de afastar e aprisionar toda a fumaça e poeira, a escuridão prevalecia. O gesto da divindade, agora chamada Rihenia, inspirou seus pares. Um deles, igualmente decidido a sacrificar-se, voou em direção à segunda barreira Rihe, colidindo e explodindo, criando uma abertura que permitiu que a poeira de Coenhlum fosse transportada para o interior de Orbis. Esse dano à barreira não se regenerou. A explosão também dispersou rochas de Coenhlum pelo vale. O mártir dessa vez foi Solilus, cujo ato deu origem a uma entidade luminosa, Solis, que iluminou cada recanto, nebulosas, asteroides, cometas, satélites naturais, meteoroides e mais. Uma onda de júbilo se espalhou entre todos.
Dentro de Orbis, os seres divinos deram início à criação profunda. Fragmentaram e manipularam as rochas dispersas pelo espaço, unindo-as para dar forma a planetas. Os resíduos foram transformados em outras esferas menores, que passaram a orbitar os planetas maiores, tornando-se planetas-anões ou satélites naturais.
Cada divindade dedicava-se ao seu respectivo planeta. Contudo, dois seres, em perfeita harmonia, insuflaram vida ao planeta agora conhecido como Lunnath, concluindo-o com uma perfeição inigualável. Por serem distintos e colaborarem mutuamente, deram origem ao maior de todos os planetas. Lunnath brilhava, claro, pálido e sublime, refletindo toda a luz ao seu redor. A criação de Lunnath despertou entusiasmo em todos.
Mas os seres divinos não se contentaram apenas com isso; ansiavam por uma proximidade ainda maior. Antes de prosseguir, porém, tomaram uma decisão impulsiva: criaram formas físicas para si, mesmo que ainda não houvesse ninguém para testemunhá-las. Assim, prepararam-se para explorar o mundo que haviam forjado com suas próprias mãos.
Após aterrissarem no solo gelado de Lunnath, contemplaram o vasto e aterrorizante cenário congelado, que possuía uma estranha beleza. Questionaram-se sobre como poderiam transformar aquele mundo em um lugar elegante e majestoso. Um deles, com um gesto curioso de girar a mão, causou um impacto colossal que descongelou instantaneamente uma grande área ao redor; as geleiras derreteram, formando oceanos que transbordaram pelo mundo. Outro, com um simples abaixar de mão, fez surgir uma crosta terrestre dos mares, provocando terremotos e dando origem a um supercontinente.
Sobrevoando essa imensa crosta, as divindades utilizaram as forças da natureza, sem recorrer às suas habilidades divinas, para construir o primeiro monumento na região conhecida como Meeting — uma estrutura com a forma de uma pirâmide. Dentro dessa construção, passaram anos discutindo sobre a criação, um período que viria a ser conhecido como a “Hibernação divina”.
As divindades, contentes com suas decisões e com a colaboração de seus parceiros, apesar das desavenças, continuaram o processo de criação, que daria origem a toda a vida existente. O verdadeiro início da vida se daria com o surgimento do primeiro ser vivo no plano, que finalmente se tornaria mortal. Embora eu não possa informar exatamente como isso aconteceu, suponho que métodos semelhantes aos anteriores foram utilizados, talvez até mais profundos, envolvendo divindades criadoras de ciclos e outros processos vitais. O nascimento marcaria o início, e a morte, o decesso. Pela primeira vez, o conceito de morte se manifesta: uma vida que se encerra após um longo período ou que termina prematuramente por um predador. Isso é o ciclo da vida. As almas se dissipam após a morte, uma visão talvez antipática, mas os seres eram vistos como indignos de uma existência pós-morte, pois eram irracionais. Provavelmente, não havia seres humanos nesta era, apenas animais, criaturas ou até mesmo bestas-feras. Este seria o paraíso primitivo.
Uma das divindades prosseguiu com sua tarefa. Acelerou-se em linha reta para abrir um portal de saída de Orbis, mas, em vez disso, abriu um portal indesejado para Okiron, o berço demoníaco. Esse evento, conhecido pelos mortais como o Primeiro Impacto, marcou a colisão entre Arcteus, o berço divino, e Okiron, o plano demoníaco, com Orbis no meio. Dragões gigantescos, criaturas aladas e escamosas que cuspem fogo, atravessaram o portal, causando terremotos e erupções vulcânicas, e as rachaduras que formaram dariam origem aos continentes.
Orbis, submerso em trevas e caos, testemunhou a devastação de Lunnath pelos juízes da morte, que deformaram o mundo. Uma explosão cataclísmica fragmentou Lunnath, dando origem a Edore, que agora orbita o planeta. As divindades, contemplando as consequências, decidiram não confrontar as criaturas diretamente. Em vez disso, forjaram os Anciãos, seres racionais à sua imagem, para restabelecer o equilíbrio. Armados e resolutos, os Anciãos mergulharam as bestas em um sono eterno. — Contudo, permanece a indagação: esse “eterno” terá um fim?
Os Anciãos não feneceram, mas suas missões foram concluídas. Não era necessário recriar tudo, pois Orbis se regeneraria com o tempo. A natureza comum, natureza divina e a magia insuflariam vida ao mundo desolado mais uma vez. Para fomentar essa renovação, as divindades plantaram a semente de Étune, que brotou em uma árvore colossal, cujos frutos nutririam os seres vivos que um dia retornariam.
As divindades se retiraram para um recanto remoto, mas mantiveram a vigilância sobre suas criações, maravilhando-se com elas. Com o passar do tempo, Lunnath se transformou completamente, abrigando diferentes continentes e uma miríade de seres vivos. Repleto de vida em cada canto, o mundo resplandecia com a mesma beleza de outrora. As divindades observavam, com paciência, a evolução desdobrar-se.
Com o avançar dos anos, emergiu o primeiro ser superior, uma criação divina incontestável. Esses Seres Superiores, os Elfos, reverenciavam as divindades; eles exploravam e prosperavam, refinando suas atividades e habilidades ao longo do tempo. Continuaram a servir, glorificar e exaltar as divindades. Em retribuição, foram agraciados com três dádivas preciosas: o livre-arbítrio, a preeminência e o Coenhlum, a perpetuidade da alma após a morte. Assim, paulatinamente, foi esculpido tudo aquilo que hoje conhecemos.
— Essa é a crença mais difundida sobre a origem de Orbis, sobre como o discernimento foi forjado, baseando-se em vestígios ancestrais. O que jaz além do conhecido é imenso. A verdade plena jamais será revelada, a menos que seja eu a revelá-la.


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